terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ética vs Moral





MORAL E ÉTICA: DOIS CONCEITOS DE UMA MESMA REALIDADE



A confusão que acontece entre as palavras Moral e Ética existem há muitos séculos. A própria etimologia destes termos gera confusão, sendo que Ética vem do grego “ethos” que significa modo de ser, e Moral tem sua origem no latim, que vem de “mores”, significando costumes.

Esta confusão pode ser resolvida com o esclarecimento dos dois temas, sendo que Moral é um conjunto de normas que regulam o comportamento do homem em sociedade, e estas normas são adquiridas pela educação, pela tradição e pelo quotidiano. Durkheim explicava Moral como a “ciência dos costumes”, sendo algo anterior a própria sociedade. A Moral tem portanto, um caráter obrigatório.

Já a palavra Ética, Motta (1984) define como um “conjunto de valores que orientam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo,assim, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma teórica que deve nortear o homem para o seu comportamento e para que este, vá de encontro do dever ser do indivíduo.

A Moral sempre existiu, pois todo ser humano possui uma consciência Moral que o leva à distinção do bem e do mal. A moral surge,quando o homem passa a fazer parte de seios institucionais,isto é, surge nas sociedades primitivas,nos primeiros contactos interpessoais humanos. A Ética teria surgido com os primeiros filósofos, pois exige maior grau de fundamentação e reflecção teórica. Ela investiga e explica as normas morais, pois leva o homem a agir não só por tradição, educação ou hábito, mas principalmente por convicção e inteligência.
Vásquez (1998) aponta que a Ética é teórica e reflexiva, enquanto a Moral é eminentemente prática.
Uma completa a outra, havendo um inter-relacionamento entre ambas, pois na acção humana, o conhecer e o agir são indissociáveis.

Em nome da amizade, deve-se guardar silêncio diante do acto de um traidor? Em situações como esta, os indivíduos deparam-se com a necessidade de organizar o seu comportamento por normas que se julgam mais apropriadas ou mais dignas de serem cumpridas.
Tais normas são aceites como obrigatórias, e desta forma, as pessoas compreendem que têm o dever de agir desta ou daquela maneira. Porém o comportamento é o resultado de normas já estabelecidas, não sendo, então, uma decisão natural, pois todo comportamento sofrerá um julgamento.
E a diferença prática entre Moral e Ética é que esta é o juiz das morais, assim Ética é uma espécie de legislação do comportamento Moral das pessoas.
Mas a função fundamental é a mesma de toda teoria: explorar, esclarecer ou investigar uma determinada realidade.

A Moral, afinal, não é somente um acto individual, pois as pessoas são, por natureza, seres sociais, assim percebe-se que a Moral também é um crescimento social. E esses actos morais, quando realizados por livre participação da pessoa, são aceites como voluntários e conscientes.

Pois assim determina Vasquez (1998) ao citar Moral como um “sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livres e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal”.

Enfim, Ética e Moral são os maiores valores do homem livre. Ambos significam "respeitar e venerar a vida". O homem, com seu livre arbítrio, vai formando ou destruindo o seu meio ambiente, subjuga tudo o que pode dominar,torna-se no bem ou no mal deste planeta se assim o entender, tendo sempre a sua conciência a ditar o seu caminho. Deste modo, Ética e a Moral formam uma mesma realidade.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

TEORIA DO CONHECIMENTO






INTRODUÇÃO

A necessidade de procurar explicar o mundo, dando-lhe um sentido e descobrindo-lhe as leis ocultas é tão antiga como o próprio Homem.Este,tem recorrido para isso quer ao auxílio da magia, do mito e da religião, quer, mais recentemente, à contribuição da ciência e da tecnologia. Mas é sobretudo nos últimos séculos da nossa História, que se tem dado a importância crescente aos domínios do conhecimento e da ciência. E se é certo que a preocupação com este tipo de questões remonta já à Grécia antiga, é porém a partir do séc. XVIII que a palavra ciência adquire um sentido mais preciso e mais próximo daquele que hoje lhe damos. É também sobretudo a partir desta época que as implicações da atividade científica na nossa vida quotidiana se têm tornado tão evidentes, que não lhe podemos ficar indiferentes.
O que é o conhecimento científico, como se adquire, o que temos implícito quando dizemos que conhecemos determinado assunto, em que consiste a prática científica, que relação existe entre o conhecimento científico e o mundo real, quais as conseqüências práticas e éticas das descobertas científicas, são alguns dos problemas com que nos deparamos frequentemente. Diante desses questionamentos, este resumo pretende fazer um apanhado geral acerca da Teoria do Conhecimento, as suas correntes e representantes, de modo que se torne mais fácil a sua compreensão.



CONCEITO

A teoria do conhecimento, interessa-se pela investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder estão as seguintes: O que é o conhecimento? Como o alcançamos? Podemos conseguir meios para defendê-lo contra o desafio céptico? Essas questões são, implicitamente, tão velhas quanto a filosofia. Mas, primordialmente na era moderna, a partir do século XVII em diante - como resultado do trabalho de Descartes (1596-1650) e Locke (1632-1704) em associação com a emergência da ciência moderna – é que ela tem ocupado um plano central na filosofia. Basicamente é conceituada como o estudo de assuntos que outras ciências não conseguem responder e se divide em quatro partes, sendo que três delas possuem correntes que tentam explica-las:

I - O conhecimento como problema, II- Origem do Conhecimento e III- Essência do Conhecimento e IV – Possibilidade do Conhecimento.



PRINCIPAIS CORRENTES E OS SEUS REPRESENTANTES


A)O Conhecimento Quanto à Origem:

A polémica racionalismo-empirismo tem sido uma das mais persistentes ao longo da história da filosofia, e encontra eco ainda hoje em diversas posições de epistemólogos ou filósofos da ciência. Abundam, ao longo da linha constituída nos seus extremos pelo racionalismo e pelo empirismo radicais, as posições intermédias, as tentativas de conciliação e de superação, como veremos a seguir.



• Empirismo

“O empirismo pode ser definido como a asserção de que todo conhecimento sintético é baseado na experiência.” (Bertrand Russell).

Conceitua-se empirismo, como a corrente de pensamento que sustenta que a experiência sensorial é a origem única ou fundamental do conhecimento.

Originário da Grécia Antiga, o empirismo foi reformulado através do tempo na Idade Média e Moderna, assumindo várias manifestações e atitudes, tornando-se notável as distinções e divergências existentes. Porém, é notório que existem características fundamentais, sem as quais se perde a essência do empirismo e a qual, todos os autores conservam, que é a tese de que todo e qualquer conhecimento sintético haure sua origem na experiência e só é válido quando verificado por factos metodicamente observados, ou se reduz a verdades já fundadas no processo de pesquisa dos dados do real, embora, a sua validade lógica possa transcender o plano dos factos observados.

Como já foi dito anteriormente, existe no empirismo divergência de pensamentos, e é exactamente esse aspecto abordado a seguir. São três, as linhas empíricas, sendo elas: a integral, a moderada e a científica.

O empirismo integral reduz todos os conhecimentos – inclusive os matemáticos – à fonte empírica, àquilo que é produto de conctato directo e imediato com a experiência. Quando a redução é feita à mera experiência sensível, temos o sensismo (ou sensualismo). É o caso de John Stuart Mill, que na obra "Sistema da Lógica" diz que todos os conhecimentos científicos resultam de processos indutivos, não constituindo excepção as verdades matemáticas, que seriam resultado de generalizações a partir de dados da experiência. Ele apresenta a indução como único método científico e afirma que nela se resolvem tanto o silogismo quanto os axiomas matemáticos.

O empirismo moderado, também denominado genético-psicológico, explica que a origem temporal dos conhecimentos parte da experiência, mas não reduz a ela a validez do conhecimento, o qual pode ser não-empiricamente válido (como nos casos dos juízos analíticos). Uma das obras baseadas nessa linha é a de John Locke "Ensaios sobre o Entendimento Humano", na qual ele explica que as sensações são o ponto de partida de tudo aquilo que se conhece. Todas as ideias são elaborações de elementos que os sentidos recebem em contacto com a realidade.

Como já foi dito, para os moderados há verdades universalmente válidas, como as matemáticas, cuja validez não assenta na experiência, e sim no pensamento. Na doutrina de Locke, existe a admissão de uma esfera de validade lógica a priori e, portanto não empírica, no que concerne aos juízos matemáticos.

Por fim, há o empirismo científico, que admite como válido, o conhecimento oriundo da experiência ou verificado experimentalmente, atribuindo aos juízos analíticos significações de ordem formal enquadradas no domínio das fórmulas lógicas. Esta tendência está longe de alcançar a almejada “unanimidade cientifica”.



• Racionalismo

É a corrente que assevera o papel preponderante da razão no processo cognoscitivo, pois, os factos não são fontes de todos os conhecimentos e não nos oferecem condições de “certeza”.

Um dos grandes representantes do racionalismo, Gottfried Leibniz, afirma na sua obra "Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano", que nem todas as verdades são verdades de fcato; ao lado delas, existem as verdades da razão, que são aquelas inerentes ao próprio pensamento humano e dotadas de universalidade e certeza (como por exemplo, os princípios de identidade e de razão suficiente), enquanto as verdades de facto são contingentes e particulares, implicando sempre a possibilidade de correcção, sendo válidas dentro de limites determinados.

Ainda retratando o pensamento racionalista, encontramos Reneé Descartes, adepto do inatismo, que afirma que somos todos possuidores, enquanto seres pensantes, de uma série de princípios evidentes, idéias natas, que servem de fundamento lógico a todos os elementos com que nos enriquecem a percepção e a representação, ou seja, para ele, o racionalismo preocupa-se com a idéia fundante de que a razão por si mesma logra atingir.

Esses dois pensadores podem ser classificados como representantes do racionalismo ontológico, que consiste em entender a realidade como racional, ou em racionalizar o real, de maneira que a explicação conceitual mais simples, se tenha em conta da mais simples e segura explicação da realidade.

Existe também uma outra linha racionalista, originada de Aristóteles, denominada intelectualismo, que reconhece a existência de “verdades de razão” e, além disso, atribui à inteligência função positiva no acto de conhecer, ou seja, a razão não contém em si mesma, verdades universais como ideias natas, mas atinge-as à vista dos factos particulares que o intelecto coordena. Concluindo: o intelecto extrai os conceitos ínsitos no real, operando sobre as imagens que o real oferece.

Hessen, um dos adeptos do intelectualismo, lembra que há nele uma concepção metafísica da realidade como condição da sua gnosiologia, que é conceber a realidade como algo de racional, contendo no particularismo contingente dos seus elementos, as verdades universais que o intelecto “lê” e “extrai”, realizando-se uma adequação plena entre o entendimento e a realidade, no que esta tem de essencial.

Por fim, devemos citar uma ramificação do racionalismo que alguns autores consideram autónoma, que é o Criticismo.

O criticismo é o estudo metódico prévio do acto de conhecer e dos modos de conhecimento, ou seja, uma disposição metódica do espírito no sentido de situar, preliminarmente o problema do conhecimento em função da relação “sujeito-obcjeto”, indagando as suas condições e pressupostos. Ele aceita e recusa certas afirmações do empirismo e racionalismo, por isso, muitos autores acreditam na sua autonomia. Entretanto, devemos entender tal posição como uma análise crítica e profunda dos pressupostos do conhecimento.

O seu maior representante, Immanuel Kant, tem como marca a determinação a priori das condições lógicas das ciências. Ele declara que o conhecimento não pode prescindir da experiência, a qual fornece o material cognoscível e nesse ponto coincide com o empirismo. Porém, sustenta também que o conhecimento de base empírica não pode prescindir de elementos racionais, tanto que só adquire validade universal quando os dados sensoriais são ordenados pela razão. Segundo palavras do próprio autor, “os conceitos sem as intuições são vazios; as intuições sem os conceitos são cegas”.

Para ele, o conhecimento é sempre uma subordinação do real à medida do humano.

Conclui-se então, que pela óptica do criticismo, o conhecimento implica sempre numa contribuição positiva e construtora por parte do sujeito cognoscente em razão de algo que está no espírito, anteriormente à experiência do ponto de vista gnosiológico.



B)O Conhecimento Quanto à Essência:

Nesta parte do estudo, analisaremos o ponto da Teoria do Conhecimento em que há mais divergências, sendo estas fundamentais pra o pleno conhecimento do assunto, que é o realismo e o idealismo.



• Realismo

Sabendo que a palavra realismo vem do latim res (coisa), podemos conceituar essa corrente como a orientação ou atitude espiritual que implica uma preeminência do objeto, dada a sua afirmação fundamental de que nós conhecemos coisas. Noutras palavras, é a independência ontológica da realidade, ou seja, o sujeito em função do objeto.

O realismo é subdividido em três espécies. O realismo ingénuo, o tradicional e o crítico.

O realismo ingénuo, também conhecido como pré-filosófico, é aquele em que o homem aceita a identidade do seu conhecimento com as coisas que a sua mente menciona, sem formular qualquer questionamento a respeito de tal coisa. É a atitude do homem comum, que conhece as coisas e as concebem tais e quais aparecem.

Já o realismo tradicional é aquele em que há uma indagação a respeito dos fundamentos,mas há uma procura em demonstrar se as teses são verdadeiras, surgindo uma atitude propriamente filosófica, seguindo a linha aristotélica.

Por último, podemos citar o realismo científico, que é a linha do realismo que acentua a verificação dos seus pressupostos concluindo pela funcionalidade sujeito-objecto e distinguindo as camadas conhecíveis do real como a participação - não apenas criadora - do espírito no processo gnosiológico. Para os seguidores desse pensamento, conhecer é sempre conhecer algo posto fora de nós, mas que, se há conhecimento de algo, não nos é possível verificar se o objecto - que nossa subjectividade compreende - corresponde ou não ao objecto tal e qual é em si mesmo.

Há portanto, no realismo, uma tese ou doutrina fundamental de que existe uma correlação ou uma adequação da inteligência a “algo” como objecto do conhecimento, de maneira que nós, conhecemos quando a nossa sensibilidade e inteligência se conformam a algo de exterior a nós. De acordo com o modo de compreender-se essa “referibilidade a algo”, bifurca-se o realismo em tradicional e o crítico, que são as duas linhas pertinentes à filosofia.



• Idealismo

Surgiu na Grécia Antiga com Platão, denominado de idealismo transcendente, onde as ideias ou arquétipos ideais representam a realidade verdadeira, da qual seriam as realidades sensíveis, meras cópias imperfeitas, sem validade em si mesmas, mas sim enquanto participam do ser essencial. O idealismo de Platão reduz o real ao ideal, resolvendo o ser em ideia, pois como ele já dizia, as ideias são o sol que ilumina e torna visíveis as coisas.

Alguns autores entendem que a doutrina platónica poderia ser vista como uma forma de realismo, pois para eles, o idealismo “verdadeiro” é aquele desenvolvido a partir de Descartes.

O que interessa à Teoria do Conhecimento, é o idealismo imanentista, que afirma que as coisas não existem por si mesmas, mas na medida e enquanto são representadas ou pensadas, de maneira que só se conhece aquilo que se insere no domínio do nosso espírito e não as coisas como tais, ou seja, há uma tendência a subordinar tudo às formas espirituais ou esquemas. No idealismo, que é a compreensão do real como idealidade (o que equivale dizer a realidade como espírito), o homem cria um objecto com os elementos da sua subjectividade, sem que algo preexista ao objecto (no sentindo gnosiológico).

Sintetizando, o idealismo é a doutrina ou corrente de pensamento que subordina ou reduz o conhecimento à representação ou ao processo do pensamento mesmo, por entender que a verdade das coisas está menos nelas do que em nós, em nossa consciência ou na nossa mente, no facto de serem “percebidas” ou “pensadas”.

Dentro dessa concepção existem duas orientações idealistas. Uma é a do idealismo psicológico ou conscienciológico, onde o que se conhece não são as coisas e sim a imagem delas. Podemos conceituá-lo como aquele em que a realidade é cognoscível se e enquanto se projecta no plano da consciência, revelando-se como momento ou conteúdo da nossa vida interior. Também chamado de idealismo subjectivo, este diz que o homem não conhece as coisas, e sim a representação que a nossa consciência forma em razão delas. Os seus mentores são Hume, Locke e Berkeley.

A outra é a orientação idealista de natureza lógica, que parte da afirmação de que só conhecemos o que se converte em pensamento, ou é conteúdo de pensamento. Ou seja, o ser não é outra coisa senão ideia.

O seu maior representante, Hegel, diz em uma de suas obras que nós só conhecemos aquilo que elevamos ao plano do pensamento, de maneira que só há realidade como realidade espiritual.

Resumindo: na atitude psicológica, ser é ser percebido e na atitude lógica, ser é ser pensado.



C)Possibilidade do Conhecimento:

Esta parte da teoria do conhecimento é responsável por solucionar a seguinte questão: qual a possibilidade do conhecimento?

Para que seja possível respondê-la, muitos autores recorrem a duas importantes posições: o dogmatismo e o ceticismo, os quais veremos abaixo.



• Dogmatismo

É a corrente que se julga em condições de afirmar a possibilidade de conhecer verdades universais quanto ao ser, à existência e à conduta, transcendendo o campo das puras relações fenomenais e sem limites impostos a priori à razão.

Existem duas espécies de dogmatismo: o total e o parcial.

O primeiro é aquele em que a afirmação da possibilidade de se alcançar a verdade última é feita tanto no plano da especulação, quanto no da vida prática ou da Ética. Este dogmatismo intransigente, quase não é adoptado, devido à rigorosidade de adequação do pensamento. Porém, encontramos em Hegel a expressão máxima desse tipo de dogmatismo, pois, existe nas suas obras uma identificação absoluta entre pensamento e a realidade. Como o próprio autor diz “o pensamento, na medida em que é, é a coisa em si, e a coisa em si, na medida em que é, é o pensamento puro”.

Já o parcial, adoptado em maior extensão, tem um sentido mais atenuado, na intenção de afirmar-se a possibilidade de se atingir o absoluto em dadas circunstâncias e modos quando não sob certo prisma. Ou seja, é a crença no poder da razão ou da intuição como instrumentos de acesso ao real em si.

Alguns dogmáticos parciais julgam-se aptos para afirmar a verdade absoluta no plano da acção. Entretanto, outros somente admitem tais verdades no plano especulativo. Daí origina-se a distinção entre dogmatismo teórico e dogmatismo ético.

O dogmatismo ético tem como adeptos Hume e Kant, que duvidavam da possibilidade de atingir as verdades últimas enquanto sujeito pensante (homo theoreticus) e afirmavam as razões primordiais de agir, estabelecendo as bases da sua Ética ou da sua Moral.

Por conseguinte, temos como adepto do dogmatismo teórico, Blaise Pascal, que não duvidava dos seus cálculos matemáticos e da exactidão das ciências enquanto ciências, mas era assaltado por dúvidas no plano do agir ou da conduta humana.



• Cepticismo

Consiste numa atitude dubitativa ou uma provisoriedade constante, mesmo a respeito de opiniões emitidas no âmbito das relações empíricas. Essa atitude nunca é abandonada pelo cepticismo, mesmo quando são enunciados juízos sobre algo de maneira provisória, sujeitos a refutação à luz de sucessivos testes.

Ou seja, o cepticismo distingue-se das outras correntes por causa da sua posição de reserva e de desconfiança em relação às coisas.

Há no cepticismo – assim como no dogmatismo – uma distinção entre absoluto e parcial, ressaltando que este último não será discutido neste artigo.

O cepticismo absoluto é oriundo da Grécia e também denominado pirronismo. Prega a necessidade da suspensão do juízo, dada a impossibilidade de qualquer conhecimento certo. Ele envolve tanto as verdades metafísicas (da realidade em si mesma), quanto as relativas ao fundo dos fenómenos. Segundo essa corrente, o homem não pode pretender nenhum conhecimento por não haver adequação possível entre o sujeito cognoscente e o objecto conhecido. Ou seja, para os cépticos absolutos, não há outra solução para o homem senão a atitude de não formular problemas, dada a equivalência fatal de todas as respostas.

Um dos representantes do cepticismo de maior destaque na filosofia moderna é Augusto Comte.

boa leitura!!

ACTO DE CONHECER

Descrição fenomenológica.

Les Principes d'une Métaphysique de la Connaissance. Paris: Ed. Montaigne, 1945, t. l, pp. 87-88

Em todo o conhecimento, um "cognoscente" e um "conhecido", um sujeito e um objecto encontram-se face a face. A relação que existe entre os dois é o próprio conhecimento. A oposição dos dois termos não pode ser suprimida; esta oposição significa que os dois termos são originariamente separados um do outro, transcendentes um ao outro.

Os dois termos da relação não podem ser separados dela sem deixar de ser sujeito e objecto. O sujeito só é sujeito em relação a um objecto e o objecto só é objecto em relação a um sujeito. Cada um deles é o que é em relação ao outro. Estão ligados um ao outro por uma estreita relação; condicionam-se reciprocamente. A sua relação é uma correlação.

A relação constitutiva do conhecimento é dupla, mas não é reversível. O facto de desempenhar o papel de sujeito em relação a um objecto é diferente do facto de desempenhar o papel de objecto em relação a um sujeito. No interior da correlação, sujeito e objecto não são, portanto, permutáveis, a sua função é na sua essência diferente. (...)

A função do sujeito consiste em apreender o objecto; a do objecto em poder ser apreendido pelo sujeito e em sê-lo efectivamente.

Considerada do lado do sujeito, esta apreensão pode ser descrita como uma saída do sujeito para fora da sua própria esfera e como uma incursão na esfera do objecto, a qual é, para o sujeito, transcendente e heterogénea. O sujeito apreende as determinações do objecto e, ao aprendê-las, introdu-las, fá-las entrar na sua própria esfera.

O sujeito não pode captar as propriedades do objecto senão fora de si mesmo, pois a oposição do sujeito e do objecto não desaparece na união que o acto do conhecimento estabelece entre eles; permanece indestrutível. A consciência dessa oposição é um aspecto essencial da consciência do objecto. O objecto, mesmo quando é apreendido, permanece para o sujeito algo exterior; é sempre o objectum, quer dizer, o que está diante dele. O sujeito não pode captar o objecto sem sair de si (sem se transcender); mas não pode ter consciência do que é apreendido, sem entrar em si, sem se reencontrar na sua própria esfera. O conhecimento realiza-se, por assim dizer, em três tempos: o sujeito sai de si, está fora de si e regressa finalmente a si.

O facto de que o sujeito saia de si para apreender o objecto não muda nada neste. O objecto não se torna por isso imanente. As características do objecto, se bem que sejam apreendidas e como que introduzidas na esfera do sujeito, não são, contudo, deslocadas. Apreender o objecto não significa fazê-lo entrar no sujeito, mas sim reproduzir neste as determinações do objecto numa construção que terá um conteúdo idêntico ao do objecto. Esta construção operada no conhecimento é a "imagem" do objecto. O objecto não é modificado pelo sujeito, mas sim o sujeito pelo objecto. Apenas no sujeito alguma coisa se transformou pelo acto do conhecimento. No objecto nada de novo foi criado; mas no sujeito nasce a consciência do objecto com o seu conteúdo, a imagem do objecto

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O problema de Gettier por John L. Pollock



É raro em filosofia chegar a consenso acerca de qualquer questão substantiva, mas durante algum tempo existiu um consenso quase completo sobre o que se designa "análise tradicional do conhecimento como crença verdadeira justificada". De acordo com essa análise:

S sabe que p se e só se:

1) p é verdadeira,
2) S acredita que p; e
3) S está justificado em acreditar que p.
No período imediato que antecedeu a publicação do famoso artigo de Gettier (1963) "É o Conhecimento Crença Verdadeira Justificada?", esta análise era defendida por virtualmente todos os epistemológos. Mas Gettier publicou o seu artigo e alterou, praticamente sozinho, o curso da epistemologia. Conseguiu isso apresentando dois contra-exemplos claros e inegáveis à análise da crença verdadeira justificada. Resumindo o exemplo do Capítulo 1, considere-se Smith que acredita falsamente mas com boas razões que Jones tem um Ford. Smith não faz ideia do paradeiro de Brown, mas escolhe arbitrariamente Barcelona e, do facto putativo de que Jones tem um Ford, infere que Jones tem um Ford ou Brown está em Barcelona. Acontece que por acaso Brown está em Barcelona, pelo que esta disjunção é verdadeira. Além do mais, tal como Smith tem boas razões para acreditar que Jones é dono de um Ford, está justificado em acreditar nesta disjunção. Mas já que os dados de que dispõe não pertencem à proposição verdadeira da disjunção, não podemos dizer que Smith sabe que Jones é dono de um Ford ou Brown está em Barcelona.

Ao ensaio de Gettier seguiu-se uma avalanche de artigos que procuravam responder aos contra-exemplos adicionando uma quarta condição à análise tradicional do conhecimento. A primeira tentativa para resolver o problema de Gettier virou-se para a consideração de que, nos exemplos de Gettier, o agente epistémico alcança uma crença verdadeira justificada raciocinando a partir de uma crença falsa. Isso sugeriu a adição de uma quarta condição parecida com o seguinte:

As razões para S acreditar p não podem incluir qualquer crença falsa.
Contudo, rapidamente se percebeu que se podia construir outros contra-exemplos em que não havia conhecimento apesar de o agente epistémico não o inferir de crenças falsas. Alvin Goldman (1976) construiu o seguinte exemplo: suponha que está a viajar pelo campo e que vê o que pensa ser um estábulo; vê isso de forma clara a curta distância, e tem o aspecto que deve ter um estábulo, e assim sucessivamente; além disso, é um estábulo. Tem então a crença verdadeira justificada de que é um estábulo. Mas as pessoas desse local, para parecerem mais ricas do que realmente são, construíram fachadas de estábulos bem realistas que não se podem distinguir facilmente do que realmente são quando vistas da auto-estrada. Há mais fachadas de estábulos do que estábulos reais. Nestas circunstâncias, não é possível concordar que, apesar de ter uma crença verdadeira justificada, sabe que o que está a ver é um estábulo. Além disso, a crença de que está a ver um estábulo não foi, de forma alguma, inferida da crença na ausência de fachadas de estábulos. Provavelmente, a possibilidade de existirem fachadas de estábulos é algo que nunca lhe ocorreu, e muito menos algo que desempenhou qualquer papel no seu raciocínio.

Podemos construir um exemplo perceptivo ainda mais simples. Suponha que S vê uma bola que lhe parece encarnada, com base no facto de ajuizar correctamente que é encarnada. Mas sem o conhecimento de S, a bola está iluminada por luzes encarnadas e pareceria encarnada mesmo que o não fosse. Então S não sabe que a bola é encarnada, apesar de ter uma crença verdadeira justificada para esse efeito. Além disso, a sua razão para acreditar que a bola é encarnada não envolve a sua crença de que a bola não está a ser iluminada por luzes encarnadas. A iluminação por luzes encarnadas está relacionada com o seu raciocínio apenas porque o derrota, e não porque é um passo do raciocínio. Estes exemplos, e outros relacionados, indicam que a crença verdadeira justificada falha como conhecimento por causa do valor de verdade das proposições não desempenhar um papel directo no raciocínio que subjaz a essa crença. Esta observação conduziu a um número de análises "anulabilistas" do conhecimento. A mais simples consistirá em adicionar uma quarta condição requerida desde que não surjam verdadeiras condições de anulabilidade. Pode ser alcançada da forma seguinte:

Não há uma proposição verdadeira Q tal que se Q fosse adicionada às crenças de S, este não estaria justificado em acreditar p.
Mas Keither Leher e Thomas Paxson (1969) apresentaram o seguinte contra-exemplo a esta proposta simples:

Suponha que vejo um homem numa biblioteca a roubar um livro e a escondê-lo debaixo do casaco. Uma vez que tenho a certeza de que esse homem é Tom Grabit, pois vi-o muitas vezes quando assistia às minhas aulas, afirmo que foi Tom Grabit que roubou o livro. Contudo, suponha também que a Sra. Grabit, mãe de Tom, afirmou que, no dia em questão, Tom não estava na biblioteca, que estava mesmo a centenas de milhar de quilómetros de distância, e que quem estava na biblioteca era John Grabit, o irmão gémeo de Tom. Além disso, imagine que desconheço em absoluto o que disse a Sra. Grabit e que, considerando a presente definição de anulabilidade, o conteúdo da sua declaração anula qualquer justificação que eu possa ter para acreditar que Tom Grabit roubou o livro [...]

O que se disse antes pode ser aceite até acabarmos a história e ficarmos a saber que a Sra. Grabit é uma mentirosa compulsiva e patológica, que Tom Grabit é uma ficção da sua mente doente, e que, tal como eu acreditava, Tom Grabit roubou o livro. Quando se acrescenta isto, deve ser óbvio que eu sabia que Tom Grabit roubou o livro. (p. 228)
Uma proposta natural para lidar com o exemplo de Grabit é que, além de haver uma verdadeira condição de anulabilidade, há um anulador da condição de anulabilidade, o que restaura o conhecimento. Por exemplo, no exemplo de Grabit é verdade que a Sra. Grabit declarou não ser o Tom que estava na livraria, mas o seu irmão gémeo John (uma condição de anulabilidade), mas também é verdade que a Sra. Grabit é uma mentirosa compulsiva e patológica e que John Grabit é uma ficção da sua mente demente (um anulador da condição de anulabilidade). Contudo, é difícil construir um princípio preciso para lidar correctamente com estes exemplos apelando a verdadeiras condições de anulabilidade e verdadeiros anuladores da condição de anulabilidade. Corrigir a proposta anterior da seguinte maneira não funciona:

Se há uma proposição verdadeira Q tal que se Q fosse adicionada às crenças de S, este já não estaria justificado em acreditar p, então também há uma proposição verdadeira R tal que se Q e R fossem ambas adicionadas às crenças de S, este estaria justificado em acreditar p.
As dificuldades mais simples apresentadas a esta proposta é que ao adicionar R podemos acrescentar novas razões para acreditar p em vez de restaurar as razões antigas. Não é trivial ver como formular uma quarta condição que incorpore anuladores de condições de anulabilidade. Penso que essa quarta condição fornecerá, em última análise, a solução para o problema de Gettier, mas nenhum tipo de solução deste tipo foi ainda explorado considerado na bibliografia.

John L. Pollock
Tradução e adaptação de Vítor João Oliveira
Excerto de "The Gettier Problem" (1986), retirado de Epistemology: Selected Texts With Interactive Commentary, org. por Sven Bernecker (Oxford: Blackwell, 2006, pp. 8-10)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Os valores

O homem vive, toma partido, crê numa multiplicidade de valores, hierarquiza-os e dá assim sentido à sua existência mediante opções que ultrapassam incessantemente as fronteiras do seu conhecimento efectivo. No homem que pensa, esta questão só pode ser raciocinada, no sentido em que, para fazer a síntese entre aquilo que ele crê e aquilo que ele sabe, ele só pode utilizar uma reflexão, quer prolongando o saber, quer opondo-se a ele num esforço crítico para determinar as suas fronteiras actuais e legitimar a hierarquização dos valores que o ultrapassam. Esta síntese raciocinada entre as crenças, quaisquer que elas sejam, e as condições do saber, constituí aquilo que nós chamamos uma "sabedoria" e é este que nos parece ser o objecto da filosofia.

Jean Piaget, Sageza e Ilusão da Filosofia



Síntese

Valores



1. Quando decidimos fazer algo, estamos a realizar uma escolha. Manifestamos certas preferências por umas coisas em vez de outras. Evocamos então certos motivos para justificar as nossas decisões.

2. Factos e valores

Todos estes motivos podem ser apoiados em factos, mas têm sempre implícitos certos valores que justificam ou legitimam as nossas preferências.

Exemplo: O dia 18 de Fevereiro de 2001 foi o dia mais importante da semana, era um domingo.

Facto: O dia 18 de Fevereiro de 2001 foi efectivamente um domingo.

Valor implícito: O domingo como o dia mais importante entre os dias da semana


3.Facto

Um facto é algo que algo que pode ser comprovado, sobre o qual podemos dizer que a afirmação é verdadeira ou falsa. Os factos são igualmente susceptíveis de gerarem consensos universais.

4. Valor

Podemos definir os valorespartindo das várias dimensões em que usamos:

a) os valores são critérios segundo os quais valoramos ou desvaloramos as coisas;

b) Os valores são as razões que justificam ou motivam as nossas acções, tornando-as preferíveis a outras.

Os valores reportam-se, em geral, sempre a acções, justificam-nas.

Exemplo: Participar numa manifestação a favor do povo timorense,pode significar que atribuímos à Solidariedade uma enorme importância. A solidariedade é neste caso o valor que justifica ou explica a nossa acção.

Ao contrário dos factos, os valores apenas implicam a adesão de grupos restritos. Nem todos possuímos os mesmos valores, nem valorizamos as coisas da mesma forma.

5.Tipos de valores

Os valores não são coisas nem simples ideias que adquirimos, mas conceitos que traduzem as nossas preferências. Existe uma enorme diversidade de valores, podemos agrupá-los quanto à sua natureza da seguinte forma:

Valores éticos: os que se referem às normas ou critérios de conduta que afectam todas as áreas da nossa actividade. Exemplos: Solidariedade, Honestidade, Verdade, Lealdade, Bondade, Altruísmo...

Valores estéticos: os valores de expressão. Exemplo: Harmonia, Belo, Feio, Sublime, Trágico.

Valores religiosos: os que dizem respeito à relação do homem com a transcendência. Exemplos: Sagrado, Pureza, Santidade, Perfeição.

Valores políticos: Justiça, Igualdade, Imparcialidade, Cidadania, Liberdade.

Valores vitais: vida,Saúde, Força.

6.Hierarquização dos Valores

Não atribuímos a todos os nossos valores a mesma importância. Na hora de tomar uma decisão, cada um de nós, hierarquiza os valores de forma muito diversa. A hierarquização é a propriedade que tem os valores de se subordinarem uns aos outros, isto é, de serem uns mais valiosos que outros. As razões porque o fazemos são múltiplas.

Exemplo:

A maioria da população mundial continua a passar graves carências alimentares. Todos os anos morrem milhões de pessoas por subnutrição. Não é de querer que hierarquia dos seus valores destas pessoas a satisfação das suas necessidades biológicas não esteja logo em primeiro lugar.

7.Polaridade dos Valores

Os nossos valores tendem a organizar-se em termos de oposições ou polaridades. Preferimos e opomos a Verdade à Mentira, a Justiça à Injustiça, o Bem ao Mal, a beleza à fealdade, a genorosidade à mesquinhês. A palavra valor costuma apenas ser aplicada num sentido positivo. Embora o valor seja tudo aquilo sobre o qual recaia o acto de estima positiva ou negativamente. Valor é tanto o Bem, como o Mal, o Justo como Injusto..

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Tipos de argumentos


1. Tipos de Argumentos

A classificação dos discursos argumentativos varia bastante conforme os autores. Vamos centrar a nossa atenção em apenas quatro tipos:

- Dedutivos

- Indutivos

- Analógicos

- Falaciosos

Argumentos dedutivos (tipo silogísticos). Nestes argumentos a verdade das premissas assegura a verdade da conclusão. Se as premissas forem verdadeiras, e o seu encadeamento adequado, a conclusão será necessariamente verdadeira. Os argumentos dedutivos não acrescentam nada de novo ao que sabemos.

Exemplo:

Todos os homens são mortais. João é homem. Logo, João é mortal.

Argumentos indutivos. Neste caso, a conclusão ultrapassa o conteúdo das premissas. Embora estas possam ser verdadeiras, a conclusão é apenas provável .

Exemplo:

Todos banhistas observados até hoje estavam queimados pelo sol. Logo, o próximo banhista que for observado estará queimado pelo sol. (argumento indutivo - generalização, previsão)

Argumento por Analogia. Neste tipo de argumentos parte-se da semelhança entre duas coisas, para se concluir que a propriedade de uma é a mesma que podemos encontrar na outra. As diferenças especificas são ignoradas.

Exemplo:

Marte é um astro como a Terra. A Terra é habitada. Logo, Marte é também habitado.

.

2. Falácias Informais

Distinção entre falácias formais e Informais:

a) as falácias formais são constituídas por raciocínios inválidos de natureza dedutiva.

b) as falácias informais compreendem os restantes tipos.

Falácias cujas premissas, sob o ponto de vista lógico, não são relevantes para a conclusão. O importante é o seu impacto psicológico:

Apelo à Piedade ( Argumentum ad Misericordiam). Faz-se apelo à misericórdia do auditório de forma a que a conclusão seja aceite.

Exemplo: Sr. Juiz não me prenda, porque se o fizer os meus filhos ficam desamparados.

Apelo à Ignorância (Argumentum ad Ignorantiam). Utiliza-se uma premissa baseada na insuficiência de evidências para sustentar ou negar uma dada conclusão.

Exemplo:

1. Ninguém provou que Deus existe. Logo, Deus não existe.

2. Ninguém provou que Deus existe. Logo, Deus não existe.

Apelo à Força ( Argumentum ad Baculum). Pressão psicológica sobre o auditório.

Exemplo: As minhas ideias são verdadeiras, quem não as seguir será castigado.

Apelo à Autoridade ( Argumentum ad Verecundiam). Faz apelo à autoridade e prestígio de alguém para sustentar uma dada conclusão.

Exemplo: Einstein, o maior génio de todos o tempos, gostava batatas fritas. Logo, as batatas fritas são o melhor alimento do mundo.

Contra a Pessoa ( Argumentum ad Hominem). Coloca-se em causa a credibilidade do oponente, de forma a desvalorizar a importância do seus argumentos.



Sofismas lógicos:

Petição de Princípio (Petitio Principi). Pretende-se provar uma conclusão, partindo de uma premissa que é a própria conclusão.

Exemplo: Toda a gente sabe que as autarquias são corruptas. Por isso não faz sentido provar o contrário.

Falsa Causa (Post hoc ). A conclusão é extraída de uma sucessão de acontecimentos.

Exemplo: O dinheiro desapareceu do cofre depois do João ter saído da loja. Logo....



Falso Dilema. Apenas são apresentadas duas alternativas, sendo omitidas todas as outras.

Exemplo: Quem não está por mim, está contra mim.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Lógica Informal




Que tipos de argumentos há?

Os argumentos de que tenho falado até aqui são também conhecidos como argumentos dedutivos.
O melhor que se pode dizer dos argumentos dedutivos é que se trata daquele tipo de argumentos cuja forma garante a verdade da conclusão, no caso de as premissas serem também verdadeiras.
A sua forma lógica é, portanto, decisiva. O mesmo não se pode dizer de outros tipos de argumentos, residindo aí a diferença entre lógica formal e lógica informal. Para além dos argumentos dedutivos temos então os argumentos:

Por analogia
Indutivos (generalizações a partir de exemplos)
Sobre causas
De autoridade

Juntamente com os argumentos dedutivos, os argumentos por analogia são os mais utilizados pelos filósofos. Os argumentos por analogia costumam apresentar a seguinte forma:

Os x têm as propriedades A, B, C, D.
Os y, tal como os x, têm as propriedades A, B, C, D.
Os x têm ainda a propriedade E.
Logo, os y têm também a propriedade E.

Podemos resumir e dizer:

Os x, como os y, têm as propriedades A, B, C, D.
Os x têm ainda a propriedade E.
Logo, os y têm a propriedade E.

Resumindo ainda mais:

Os x são E.
Os y são como os x.
Logo, os y são E.

Os argumentos por analogia partem da ideia de que se diferentes coisas são semelhantes em determinados aspectos, também o serão noutros.

Veja-se o exemplo seguinte:

Os soldados de um batalhão têm de obedecer às decisões de um comandante para atingir os seus objectivos.
Uma equipa de futebol é como um batalhão.
Logo, os jogadores de uma equipa de futebol têm de obedecer às decisões de um comandante (treinador) para atingir os seus objectivos.

O termo «como» na segunda premissa está destacado. Esse termo indica que estamos a estabelecer uma comparação entre situações análogas, característica dos argumentos por analogia. Mas será que apenas pela forma do argumento ficamos a saber se é aceitável ou não? Para tornar clara a resposta a esta pergunta, compare-se o argumento anterior com o seguinte:

Os soldados de um batalhão andam armados quando treinam.
Uma equipa de futebol é como um batalhão.
Logo, os jogadores de futebol andam armados quando treinam.

A primeira coisa que se torna evidente é que, ainda que o primeiro argumento possa ser aceitável, este último não o é com toda a certeza. Acontece, porém, que ambos exibem exactamente a mesma forma. Concluímos, assim, que a mera inspecção da sua forma não nos permite classificar os argumentos por analogia como bons ou maus.

Portanto, a qualidade destes argumentos não depende da sua forma lógica.

Encontramos com a mesma forma bons e maus argumentos por analogia.
Por isso é que tais argumentos não fazem parte da lógica formal.
Por isso também não dizemos que um argumento por analogia é válido ou inválido, coisa que só se aplica aos argumentos dedutivos.

Recordo a definição de validade, segundo a qual é logicamente impossível obter conclusões falsas de premissas verdadeiras, o que não acontece nos argumentos por analogia.

Nos argumentos por analogia nunca podemos garantir logicamente que de premissas verdadeiras se obtêm sempre conclusões verdadeiras.

Isto é, os argumentos por analogia não possuem a característica de preservar logicamente a verdade. Assim, não temos outro remédio senão olhar para aquilo que as premissas e a conclusão afirmam, de pouco servindo a análise do seu aspecto formal.

Repare-se no seguinte argumento:

Os bombeiros dividem-se em batalhões, obedecem a uma hierarquia e têm um quartel, como os polícias.
Os polícias usam farda.
Logo, os bombeiros usam farda.

Vimos que um argumento por analogia não é válido ou inválido, mas que nem todos os argumentos por analogia são maus.
Costuma-se dizer que os argumentos por analogia são fortes ou fracos. Como distinguimos uns dos outros? O argumento anterior é constituído por premissas e conclusão verdadeiras.
Aparentemente é um argumento forte por analogia.

Mas veja-se agora um outro argumento por analogia (com a mesma forma do anterior, claro) com premissas também verdadeiras, mas cuja conclusão é manifestamente falsa:

Os bombeiros dividem-se em batalhões, obedecem a uma hierarquia, têm um quartel e usam farda, tal como os polícias.
Os polícias usam arma.
Logo, os bombeiros usam arma.

Este argumento é, sem dúvida, fraco. Até porque a conclusão é falsa.
Ao avaliar um argumento por analogia no sentido de saber se é forte ou fraco, temos de estar atentos a três critérios, os quais se manifestam nas seguintes perguntas:
As semelhanças apontadas nos casos que estão a ser comparados são relevantes para a conclusão que se quer inferir?

A comparação tem por base um número razoável de semelhanças?
Apesar das semelhanças apontadas, não haverá diferenças fundamentais entre os casos que estão a ser comparados?
Aplicando os critérios patentes nas perguntas anteriores, podemos verificar se uma analogia é forte ou fraca.
No caso do argumento anterior, por exemplo, verificamos que falha os critérios 1e3.

As semelhanças entre os bombeiros e os polícias são muitas, mas não são relevantes para a conclusão que se quer tirar.
Nenhuma delas está sequer relacionada com o uso de arma, falhando assim o critério 1.

Mas também falha o critério 3 porque existe uma diferença fundamental entre os bombeiros e os polícias.
Estes fazem parte de uma força da ordem, necessitando por isso dos meios para a restabelecerem quando é perturbada; aqueles são membros de uma força de paz, não necessitando de quaisquer meios de coacção.

A seguinte analogia também é claramente fraca:

Os franceses, como os ingleses, têm vários filósofos famosos.
Os franceses estudam filosofia no ensino secundário.
Logo, os ingleses estudam filosofia no secundário.

É discutível se a semelhança referida é ou não relevante para a conclusão, mas não há qualquer dúvida que o critério (ii) não é satisfeito. Não podemos inferir seja o que for sobre o ensino da filosofia em Inglaterra baseados apenas numa semelhança com o caso francês.

Um famoso argumento por analogia a favor da existência de Deus é o seguinte:

Todas as máquinas têm um criador que as põe a funcionar de forma precisa, regular e inteligível.
O mundo é como uma máquina.
Logo, o mudo tem um criador.

Será um argumento forte? Não é difícil admitir que as semelhanças são relevantes para a conclusão, passando satisfatoriamente o critério 1.
Também não é difícil admitir que as semelhanças entre as máquinas e a natureza são numerosas, passando também no critério 2.

E quanto ao critério 3? Será que há diferenças fundamentais?

Parece-me que há uma diferença que não pode ser desprezada: enquanto as máquinas não se modificam nem evoluem com o tempo, a não ser pela intervenção de alguém, os seres naturais modificam-se e aperfeiçoam-se constantemente por si próprios.

Esta diferença é determinante para pôr em causa a necessidade de um criador para a natureza. O argumento falha, portanto, o critério 3.
Por isso é um argumento fraco.

Se os argumentos dedutivos e por analogia são muito utilizados na filosofia, o mesmo já não acontece com os argumentos a partir de exemplos — mais conhecidos como «argumentos indutivos» ou «generalizações».

Contudo, são os argumentos mais utilizados fora da filosofia. Grande parte das opiniões das pessoas resulta de processos indutivos de raciocínio.

É o que se verifica em afirmações comuns como «os alentejanos são preguiçosos», «os alemães são racistas», «todos os seres humanos morrem», «o Sol vai nascer amanhã», «as mulheres são mais sensíveis do que os homens», etc.

A forma dos argumentos indutivos é a seguinte:
Alguns A são B.
Logo, todos os A são B.

Neste caso a premissa é apenas o resumo de um conjunto mais ou menos extenso de casos particulares. Mas por muito extenso que seja o número de exemplos de que se parte num argumento indutivo, nunca temos a garantia lógica de que a conclusão seja verdadeira.

Também aqui corremos o risco de encontrar premissas verdadeiras e conclusão falsa.

Portanto, os argumentos indutivos, como já acontecia com os analógicos, não são válidos ou inválidos.

Veja-se o seguinte exemplo:

Os cisnes observados até agora são brancos.
Logo, todos os cisnes são brancos.

Note-se que a premissa, ao referir todos «os cisnes observados até agora», está a referir apenas alguns cisnes e não todos os que existem.

Apesar disso, dificilmente diremos que não constitui uma boa razão para concluir que todos os cisnes são brancos.

De facto, durante muito tempo se pensou que todos os cisnes eram brancos até ao dia em que se descobriu um lugar até então desconhecido (a Austrália) em que os cisnes são pretos.

Bastava, aliás, que um só cisne fosse de outra cor para tornar falsa a conclusão anterior.

Mas será que alguém considera fraco o argumento seguinte?
Até agora todas as esmeraldas encontradas são verdes.
Logo, todas as esmeraldas são verdes.

É claro que este é um bom argumento. Não é logicamente impossível que a conclusão seja falsa. Mas é improvável.

Assim, uma indução é forte se, e só se, for improvável, mas não logicamente impossível, que a sua conclusão seja falsa.

Caso contrário a indução é fraca. Tudo depende, como é óbvio, da força com que as premissas apoiam a conclusão.

Os argumentos indutivos não são, de resto, invulgares nas ciências empíricas. Algumas das descobertas científicas são o resultado de generalizações fortemente apoiadas em observações e experiências realizadas.
O que não significa que essas generalizações não tenham de ser constantemente testadas pelos próprios cientistas.
Uma vez que sabem que não é logicamente impossível que as suas conclusões sejam falsas, ainda que apoiadas em numerosas observações, os cientistas procuram testá-las procurando os contra-exemplos que as podem tornar falsas.

No caso dos cisnes o contra-exemplo acabou por aparecer, mas isso não significa que todos os argumentos indutivos sejam maus. Tudo o que devemos evitar é fazer generalizações apressadas sem procurar avaliar se as premissas que sustentam as nossas conclusões são suficientemente fortes para isso.

Também frequentes nas ciências empíricas são os argumentos sobre causas. Neste tipo de argumentos o que se faz é procurar conexões entre fenómenos de modo a estabelecer uma relação causal entre eles.

A célebre experiência do cão de Pavlov, a qual levou à descoberta do reflexo condicionado, é um exemplo deste tipo de argumento. Pavlov submeteu o cão a determinados estímulos, estudando as suas reacções.

Dessa forma Pavlov conseguiu explicar a relação que existia entre o estímulo produzido e o salivar do cão.

Apesar de este tipo de argumento não ser habitual em filosofia, há, ainda assim, um cuidado a ter: não concluir que um fenómeno é causado por outro porque a este se segue sempre aquele.
Este é um raciocínio muito frequente mas incorrecto. Trata-se, pois, de uma falácia. Essa falácia é conhecida como post hoc.

Um exemplo disso é:

O trovão vem sempre depois do relâmpago.
Logo, o relâmpago é a causa do trovão.

Mesmo sendo verdade que o relâmpago antecede o trovão, é falso que este seja causado por aquele. De facto, tanto o relâmpago como o trovão são causados pelo mesmo fenómeno: uma descarga eléctrica.

Resta-me falar dos argumentos de autoridade. Este tipo de argumento é principalmente utilizado quando queremos apresentar resultados que não são do domínio geral e que dependem de alguma forma de competência técnica ou de conhecimento especial. Nesses casos, nada melhor do que invocar o que os especialistas na matéria em causa afirmam.

A sua forma costuma ser:

X afirma que P.
Logo, P.

Estes argumentos nem sempre são maus. Mas são frequentemente utilizados de forma abusiva. Eis um exemplo de um bom argumento de autoridade:
Carl Sagan diz que há mais estrelas do que grãos de areia em todas as praias da Terra.

Logo, há mais estrelas do que grãos de areia em todas as praias da Terra.
Por que razão é este um bom argumento de autoridade? Porque obedece aos dois critérios seguintes:

A autoridade invocada é reconhecida como tal pelos seus pares; os especialistas não divergem entre si.

São estes mesmos critérios que tornam falaciosos os argumentos de autoridade em filosofia. Como se sabe, seja qual for o assunto, os filósofos discordam entre si. Por isso, ainda que o critério 1 fosse satisfeito, o critério 2 nunca o seria. Utilizar argumentos de autoridade em filosofia é incorrer numa falácia: a falácia do apelo à autoridade.

Contudo, quando, por exemplo, os filósofos enfrentam determinados problemas cuja discussão depende de informação científica disponível, não só podem mas devem apoiar-se naquilo que os especialistas nessa matéria dizem.

Mas sempre com o cuidado de referir claramente quando e onde é que o especialista afirmou tal coisa.
Gostaria ainda de referir uma outra falácia que de alguma forma está relacionada com a autoridade de quem argumenta.

Só que, neste caso, para a desvalorizar.

Essa falácia é conhecida como ad hominem.
Em vez de se discutir o argumento, critica-se a pessoa que o produz.

Assim se procura combater as ideias atingindo as pessoas que as defendem.
Atacar as pessoas em vez das suas ideias é uma falácia, infelizmente muito frequente.

Na verdade, mesmo as piores pessoas do mundo podem utilizar bons argumentos.

E os argumentos não são bons ou maus consoante as pessoas que os produzem.

Entendido!!!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

SILOGISMO DISJUNTIVO

O Silogismo disjuntivo é um silogismo que se apresenta sob a forma de alternativa.



1º disjunto 2º disjunto

Ou |........................| ou |...................................|



Este silogismo pode ser do tipo:

- Modus Ponens (ponendo tollens): o argumento só é legítimo se, ao afirmar-se a verdade de um disjunto, se negar o outro:

Este triângulo ou é isósceles ou escaleno

Ora este triângulo é escaleno

Logo, este triângulo não é isósceles



- Modus Tollens (tollendo ponens): ao negar-se um membro da disjunção (disjunto), afirma-se o outro membro:

O João ou é diligente ou preguiçoso

Ora, o João não é diligente

Logo, o João é preguiçoso.

TEORIA DO SILOGISMO CONDICIONAL

São silogismos em que a premissa maior mão afirma nem nega de modo absoluto, mas a título condicional.

Aplicam-se-lhe uma de entre duas regras.

Exemplo:

Condição ou hipótese: Se |estiver bom tempo |, então |irei passear|

Facto: Está bom tempo

Conclusão: Logo, vou passear.



Regra do Modus Ponens (ponendo ponens): afirmando na segunda premissa o antecedente da hipótese (aceitando o conteúdo do antecedente), afirma-se o consequente (aceita-se o conteúdo expresso no consequente da premissa condicional)
Exemplo:

Condição ou hipótese: Se tiver teste, faço serão

Facto: Ora, não fiz serão

Conclusão: Logo, não fiz teste.



Regra do Modus Tollens (Tollendo Tollens): negando-se na segunda premissa o consequente da condição, nega-se o antecedente dessa mesma condição.


Muito cuidado com as negações e duplas negações, não nos esquecendo o princípio da dupla negação (DN): uma dupla negação equivale a uma afirmação. Exemplo: negar que não é verdade que o João esteja a fumar é afirmar que o João está a fumar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Regras, Figuras e Modos do Silogismo

1. O silogismo categórico é uma inferência dedutiva. Não se pretende descobrir nada de novo, mas apenas demonstrar a validade de algo que já se conhece.

2. Aceitando certas premissas como verdadeiras, a conclusão é necessariamente válida e verdadeira, se foram cumpridas certas regras de inferência.

Exemplo de uma conclusão inválida com premissas verdadeiras



Todas as baleias são mamíferos

Todos os gatos são mamíferos.

Logo, todos os gatos são baleias.




3. As regras de validade do silogismo são três segundo Aristóteles. Durante a Idade Média foram apontadas oito, e são estas que a tradição acabou por consagrar no seu ensino.



Regras do Silogismo Categórico Regular

Regras dos Termos

Regras

Exemplos Inválidos

1 Ter três termos (sem equívocos): maior, médio e menor.

Todo o touro tem chifres

Touro é uma constelação

Logo, uma constelação tem chifres


T. Maior:chifres;
T. Médio: Touro (animal);
T.Menor: Constelação;


2. Os termos maior e menor não podem ter, na conclusão, maior extensão do que nas premissas.

Tudo o que magoa é mau.

Alguns homens magoam.

Logo, todos os homens são maus

T. Maior: maus;
T.Menor: todos os homens;
T.Médio:magoam.

3. O termo médio tem que ser tomado pelo menos uma vez em toda a sua extensão (universalmente).

A tâmara é um fruto

A laranja é um fruto

Logo, a tâmara é uma laranja.


T. Médio: fruto.


4. O termo médio não deve entrar na conclusão Tâmara é grande

Tâmara é faladora

Portanto, a Tâmara é uma grande faladora.

T. Médio: Tâmara
Regras das Proposições

Regras
Exemplos Inválidos

5. Premissas afirmativas pedem uma conclusão afirmativa Insultar é um acto indigno

Os actos indignos são condenáveis

Logo, insultar não é condenável.

6. De duas premissas negativas nada se pode concluir Nenhum homem é imortal

Os pássaros não são homens

Portanto, os pássaros são imortais.

7. A conclusão segue a parte mais fraca Todos os leões são mamíferos

Alguns animais são leões

Portanto, todos os animais são mamíferos.

8. De duas premissas particulares nada se pode concluir. Algum aluno é preguiçoso

Algum aluno é estudioso

Portanto, alguns alunos estudiosos são preguiçosos.




4. Os modos e figuras do silogismo determinam a sua forma



Modos do Silogimos

Designa-se por modo cada uma das formas que o silogismo pode tomar derivado da quantidade e qualidade das proposições que o constituem.
Cada proposição pode ser dos tipo "A" (universal afirmativa), "E" (universal negativa), "I" (particular afirmativa) ou "O" (particular negativa).

Exemplo do modo A A I;
As baleias são vertebrados (A)

As baleias são animais aquáticos (A)

Logo, alguns animais aquáticos são vertebrados (I).

No total das combinações podemos ter 256 modos possíveis, no entanto são 19 modos são legitimos. Os restantes são sofismas do tipo:

I I A, A I O , E E E, E I A ...

Figuras do Silogismo

Designa-se por figura cada uma das formas que o silogismo pode tomar derivado da posição do termo médio como sujeito ou predicado das proposições. Existem apenas 4 figuras possíveis para o silogismo categórico.
1º. Figura

O termo médio é sujeito da primeira premissa e

predicado da segunda premissa.



Ex. Todo o homem é mortal

António é homem

Logo, António é mortal

M - P

S - M

S - P

S- Sujeito de predicado

P- Predicado da conclusão

M - Termo médio do silogismo



2ª. Figura

O termo médio é predicado nas duas premissas

Ex. Todo o homem é racional

O cão não é racional

Logo, o cão não é homem



P - M

S -M

S - P


3ª. Figura

O termo médio é sujeito nas duas premissas


Ex. Todos os carbonos são corpos simples

Todos os carbonos são condutores eléctricos

Logo, alguns condutores de electricidade são corpos simples





M - P

M -S

S - P




4ª. Figura

O termo médio é predicado na primeira premissa e sujeito na segunda


Ex. Os portugueses são homens

Os homens são mortais

Logo, alguns mortais são portugueses


P - M

M- S

S - P

A lógica

A lógica (do grego clássico λογική logos, que significa palavra, pensamento, idéia, argumento, relato, razão lógica ou princípio lógico), é uma ciência de índole matemática e fortemente ligada à Filosofia. Já que o pensamento é a manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, é preciso estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. Assim, a lógica é o ramo da filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento do pensar. A aprendizagem da lógica não constitui um fim em si. Ela só tem sentido enquanto meio de garantir que nosso pensamento proceda corretamente a fim de chegar a conhecimentos verdadeiros. Podemos, então, dizer que a lógica trata dos argumentos, isto é, das conclusões a que chegamos através da apresentação de evidências que a sustentam. O principal organizador da lógica clássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Organon. Ele divide a lógica em formal e material.

Um sistema lógico é um conjunto de axiomas e regras de inferência que visam representar formalmente o raciocínio válido. Diferentes sistemas de lógica formal foram construídos ao longo do tempo quer no âmbito escrito da Lógica Teórica, quer em aplicações práticas na computação e em Inteligência artificial.

Tradicionalmente, lógica é também a designação para o estudo de sistemas prescritivos de raciocínio, ou seja, sistemas que definem como se "deveria" realmente pensar para não errar, usando a razão, dedutivamente e indutivamente. A forma como as pessoas realmente raciocinam é estudado nas outras áreas, como na psicologia cognitiva.

Como ciência, a lógica define a estrutura de declaração e argumento para elaborar fórmulas através das quais estes podem ser codificados. Implícita no estudo da lógica está a compreensão do que gera um bom argumento e de quais argumentos são falaciosos.

A lógica filosófica lida com descrições formais da linguagem natural. A maior parte dos filósofos assumem que a maior parte do raciocínio "normal" pode ser capturada pela lógica, desde que se seja capaz de encontrar o método certo para traduzir a linguagem corrente para essa lógica.

O valor da filosofia

“O valor da filosofia, em grande parte, deve ser buscado na sua mesma incerteza. Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão ponderada. O mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente caímos na conta de que até os objectos mais familiares conduzem o espírito a certas perguntas a que incompletissimamente se dá resposta . A filosofia sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo, um tudo nada arrogante e vivifica o sentimento de admiração. ”

Bertrand Russell

A filosofia e os outros saberes

A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos.

A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «O que é o tempo?» Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: «O que é um número?» Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisas for a das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: «Que faz uma palavra significar qualquer coisas?» Qualquer pessoa pode perguntar se entra num cinema sem pagar se está errado, mas um filósofo perguntará: «O que torna uma acção certa ou errada?»



Nagel, Thomas., Que quer dizer tudo isto?, “Introdução”, pp. 8-9.

As questões da filosofia

A filosofia é uma actividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas.

Que tipo de coisas discutem os filósofos? Muitas vezes examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente «o sentido da vida»: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas porque razão não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra «deve»? estas são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas – uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.

Warburton, Nigel, Elementos Básicos de Filosofia.

alguma bibliografia...

Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos-João Branquinho e Desidério Murcho (org).Lisboa. Gradiva, 2001

Dicionário Básico de Filosofia -Hilton Japiassu e Danilo Marcondes.Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editores.

Dicionário Breve de Filosofia-Alberto Antunes, António Estanqueiro e Mário Vidigal.Lisboa.Editorial Presença.2000

Dicionário das Mil Obras de Filosofia-Denis Huisman, Porto.Porto Editora.2001

Dicionário de Obras de Filosofia-Denis Huisman.São Paulo.Martins Fontes.2001

Dicionário de Filósofos-Denis Huisman.São Paulo.Martins Fontes.2001

Dicionário Filosófico (5 Volumes)-M.M.Rosental e P.F.Iudin (Dir.), Lisboa.Editorial Estampa.1972

Dicionário de Filosofia-Jacqueline Russ.Lisboa.Plátano Editora.2000

Dicionário de Filosofia- Sylvain Auroux e Yvonne Weil. Lisboa. Asa. 1993

Dicionário de Filosofia-Simon Blackburn. Lisboa. Gradiva, 1997

Dicionário de Filosofia- Walter Brugger . São Paulo. Editora Herder. 1962

Dicionário de Filosofia (versão abreviada)-José Ferrater Mora.Lisboa Publicações Dom Quixote, 1978

Dicionário de Filosofia -José Ferrater Mora.4 vols. São Paulo. Loyola

Dicionário de Filosofia-Gérard Legrand.Lisboa.Edições 70. 2002

Dicionário de Filosofia-Dagobert D. Runes.Lisboa.Editorial Presença.1990

Dicionário de Filosofia-G.Dorozoi e A.Roussel. Porto. Porto Editora.2000

Dicionário de Filosofia-N.Abbagnano. São Paulo. Editora Meste Jou.1982

Dicionário de Filosofia-N.Abbagnano. São Paulo.Martins Fontes.2000

Dicionário de Filosofia-Mario Bonge.São Paulo.Editora Perspectivas.2001

Dicionário de Filosofia Portuguesa- Pinharanda Gomes.Lisboa.Pub.Dom Quixote.1987

Dicionário das Grandes Filosofias- Lucien Jerphagnon (Dir.).Lisboa.Edições 70

Dicionário do Pensamento Contemporâneo-Manuel Maria Carrilho (Dir.).Lisboa.Publicações D.Quixote.1991

Dicionário Oxford de Filosofia- Simon Blackbum. Rio de Janeiro.Jorge Zahar Editor.

Dicionário Prático de Filosofia-Élisabeth Clément e outros. Lisboa.Terramar, 1997

Dicionário Temático de Filosofia (Larouse)- Julia,Didier. Lisboa. Círculo de Leitores. 1992

Filosofias da Humanidade (As)- Philippe Gaudin, Michel Malberbe.Lisboa. Instituto Jean Piaget.

Logos - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (5 Volumes) - João B.Chorão (coord.), Lisboa.Verbo.1992

Nomes e Temas da Filosofia Contemporânea-N.Abbagnano.Lisboa.Pub.Dom Quixote.1990

O meu Dicionário Filosófico -Fernando Salvater. Lisboa.Publicações Dom Quixote, 2000

Polis- Enciclopédia (4 volumes).Lisboa.Verbo

Termos Filosóficos Gregos-Um Léxico Histórico-F.E.Peters, Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.1974

Vocabulário de Filosofia-Técnico e Crítico (2 Volumes) - André Lalande. Porto.Rés-Editora.

100 Filósofos do Século XX- Stuart Brow, Diane Collinson, Robert Wilkinson. Lisboa. Instituto Jean Piaget.2002

boas pesquisas e leituras.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

dica refente à aula de hoje...

Lógica do Juízo

Definição de Juízo.

Chama-se juízo ao acto do pensamento que consiste na atribuição afirmativa ou negativa de um atributo (Predicado), a um conceito (Sujeito), através de um elemento de ligação (Cópula). O juízo tem assim uma estrutura triádica, fazendo-nos lembrar que a palavra latina ‘pensare ’, que está na origem da nossa palavra ‘pensar’, significa pesar, ou seja, comparar uma coisa com outra (a medida), para daí retirar o conhecimento de um seu atributo (ou característica), neste caso do seu peso. E é interessante vermos que o a estrutura formal do juízo se assemelha à de uma balança:

Sujeito + Cópula + Predicado

‘Alguns homens são europeus’

Definição de juízo categórico: um juízo diz-se categórico, quando a relação entre o sujeito e o predicado é afirmada ou negada sem condições ou restrições.



Classificação dos juízos quanto à quantidade e à qualidade:

Quanto à quantidade os juízos (proposições) podem ser particulares, quando o termo-sujeito é particular, e universais, quando o termo-sujeito é universal. No que diz respeito às inferências, na Lógica Clássica, os juízos com um termo-sujeito singular têm o mesmo valor lógico que os juízos universais, uma vez que os conceitos singulares ocorrem sempre na sua máxima extensão.

Quanto à qualidade, os juízos (proposições) podem ser afirmativos, quando a relação entre o sujeito e o predicado é afirmativa (inclusiva), e negativos, quando a relação entre o sujeito e o predicado é negativa (exclusiva).



Definição d1 - Numa proposição (juízo), um termo diz-se distribuído, quando ocorre na sua máxima extensão (universalmente).

Dado o que ficou estabelecido, existem quatro tipos de juízos categóricos (proposições predicativas categóricas). No quadro seguinte apresentam-se esses quatro tipos de proposição (doravante utilizaremos o termo ‘proposição’ em vez do termo ‘juízo’, já que acima estabelecemos a sua equivalência prática), bem como os símbolos utilizados em Lógica para os denotar. É importante prestar muita atenção ao quadro, uma vez que iremos utilizar os símbolos nele apresentados, para nos referirmos a cada um dos tipos de proposição.



OS DIVERSOS TIPOS DE PROPOSIÇÃO

PROPOSIÇÃO
ESTRUTURA FORMAL

A – Universal Afirmativa
‘Todos os x são y’

I – Particular Afirmativa
‘Alguns x são y’

E - Universal Negativa.
‘Nenhum x é y’

O - Particular Negativa.
‘Alguns x não são y’


Regra Rd1 - Nas proposições universais, o termo-sujeito está sempre distribuído.
Nas proposições negativas, o termo-predicado está sempre distribuído.


De acordo com a Regra Rd1, podemos chegar à conclusão que nas proposições de tipo A, o termo-sujeito está distribuído; nas proposições de tipo O, o termo-predicado está distribuído; nas proposições de tipo E, tanto o termo-sujeito como o termo-predicado estão distribuídos:

DISTRIBUIÇÃO DOS TERMOS

TIPO DE PROPOSIÇÃO A

SUJEITO - distribuído( entenda-se em toda a sua extenção)
PREDICADO - não distribuído( entenda-se que só se verifica parte da sua extenção)

TIPO I

SUJEITO - não distríbuido
PREDICADO - não distríbuido

TIPO E

SUJEITO - distribuído
PREDICADO - distribuído

TIPO O

SUJEITO - não distríbuido
PREDICADO - distribuído




Regra FnP Todos os enunciados utilizados nas inferências da Lógica Clássica devem estar reduzidos à sua Forma Normal ou Padrão. No caso das proposições, a sua Forma Normal compreende os seguintes elementos:

Quantificador+Sujeito+Cópula+Predicado.

O quantificador é o elemento da proposição que nos indica a sua quantidade e ocorre sempre no início da proposição. Eis os quantificadores-padrão que vamos utilizar: Todos; Alguns; Nenhum.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Heraclito




Heráclito (c. 540-480 a.C.), que era de Éfeso, na Ásia Menor, propunha que a matéria básica do Universo seria o fogo. Pensava também que a mudança constante, ou o fluxo, seria a característica mais elementar da Natureza. Pode-se talvez dizer que Heráclito acreditava mais do que Parmênides naquilo que percebia.

"Tudo flui", disse Heraclito. Tudo está em fluxo e movimento constantes, nada permanece. Por conseguinte, "não entramos duas vezes no mesmo rio". Quando entro no rio pela segunda vez, nem eu nem o rio somos os mesmos.
Heráclito assinalou que o mundo se caracterizaria por opostos. Ele acreditava que tanto o bem como o mal teriam um lugar inevitável na ordem das coisas, e que sem essa constante interação de opostos o mundo deixaria de existir.
"Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, fome e saciedade", disse Heráclito. Ele usou a palavra 'Deus', mas evidentemente não se referia aos deuses da mitologia grega. Para Heráclito, Deus - ou a Deidade - seria algo que incluísse o mundo inteiro.

Em lugar da palavra "Deus", Heráclito usava com freqüência a palavra grega logos, que significa razão. Embora não pensemos sempre da mesma forma, ou tenhamos o mesmo grau de razão, Heráclito estava convencido de que deveria haver uma espécie de "razão universal", ou "lei universal", guiando tudo o que ocorre na Natureza.

Trata-se de algo pelo qual todos os seres humanos são guiados - e, no entanto, Heráclito pensava, a grande maioria das pessoas vive segundo a razão individual. De modo geral, ele desprezava o próximo. "As opiniões da maioria", disse ele, "são como brinquedos para as crianças."
Assim, no centro de todo esse fluxo constante e essa interação de opostos, Heráclito divisou uma Entidade, ou unidade. Esse "algo", que seria a origem de todas as coisas, ele chamou de Deus, ou logos.

Parménides




"O Ser é, o não-ser não é; e: o que é não pode não-ser"
A força com que Parmênides expõe aos ouvintes as suas doutrinas fundamentais não deriva de uma convicção dogmática, mas da vitória da necessidade do pensamento. O conhecimento é também uma absoluta ananke para Parmênides, que ainda o denomina dike ou morra, evidentemente por influência de Anaximandro. É o mais alto fim a que a investigação humana pode aspirar. Mas quando diz que Dike mantém o ser fixo nos seus limites, sem qualquer possibilidade de dissolução. De tal modo que já não pode nascer nem perecer, vê-se que a sua Dike tem uma função contrária à de Anaximandro, a qual se manifesta na geração e corrupção das coisas. A Dike de Parmênides, que separa o ser de toda a geração e corrupção e o faz permanecer imóvel em si mesmo, é a necessidade implícita no conceito do Ser, interpretada como "aspiração do Ser à justiça". Nas frases insistentemente repetidas "o Ser é, o não-ser não é; e: o que é não pode não-ser", Parmênides exprime a necessidade do pensamento da qual deriva a impossibilidade de realizar no conhecimento a contradição lógica.

Esta força daquilo que se adquiriu no puro pensamento é a grande descoberta que domina toda a filosofia eleática. Determina a forma polémica dentro da qual o seu pensamento se desenvolve. O que nas suas proposições fundamentais aparece como a descoberta de uma lei lógica é para ele um conhecimento objectivo, cujo conteúdo o coloca em conflito com toda a anterior filosofia da natureza. Se é certo que o Ser nunca não é e o não-Ser nunca é, torna-se evidente para Parmênides que o devir é impossível. A aparência, porém, revela-nos algo de diferente. Os filósofos naturalistas, que nela confiam cegamente, sustentam que o Ser vem do não-Ser e no não-Ser se dissolve. No fundo, é a opinião de todos nós. Confiamos nos olhos e nos ouvidos em vez de perguntarmos ao pensamento, o único que pode guiar-nos à certeza infalível. O pensamento é a vista e o ouvido espiritual do Homem.

Aqueles que não o seguem são como cegos e surdos, e emaranham-se em contradições sem saída. Não têm outro remédio senão admitir que o Ser e o não-Ser são e não são o mesmo, ao mesmo tempo. Se derivarmos o Ser do não-Ser, admitimos que a sua origem é incognoscível. Ao verdadeiro conhecimento deve corresponder um objecto. Assim, se de facto buscamos a verdade, temos de nos afastar da geração e corrupção, que levam a proposições impensáveis, e nos ater ao puro Ser, que no pensamento nos é dado. O pensamento e o Ser são uma e a mesma coisa.

Empédocles




Visto na antiguidade como profeta e mago, Empédocles também foi político, orador e poeta. Diz a lenda que encerrou a sua brilhante carreira atirando-se na cratera do vulcão Etna, para dar aos seguidores uma demonstração convincente de divindade.

Empédocles nasceu em Agrigento, Sicília, então parte da Magna Grécia, por volta de 490 a.C. Continuador da tradição dos jônicos, desenvolveu uma interpretação do universo em que todos os fenómenos da natureza eram entendidos como resultado da mistura de quatro elementos: água, fogo, ar e terra. Esses princípios, também chamados "raízes", seriam eternamente subsistentes, jamais engendrados, e de sua união ou separação nasceriam e pereceriam todas as coisas. Os quatro elementos se uniriam sob a força do amor e se separariam sob o influxo do ódio. Os mananciais e os vulcões seriam provas da existência de água e fogo no interior da Terra.

Segundo Empédocles, no poema Katharmoi (As purificações), a intervenção do ódio está na origem de todas as coisas e dos seres individuais, que se vão diversificando até a separação total e o domínio absoluto do mal. Entretanto, o princípio do amor voltará a triunfar, unificando e misturando tudo até a configuração de uma só coisa, Sphairos, a esfera perfeita, na qual o mundo presente tem princípio e fim. No mundo actual há seres individuais e, portanto, ódio e injustiça, o que exige um processo de purificação que só terminará quando o amor triunfar. Mas esse triunfo é ainda relativo: a evolução dos mundos é um processo no qual se manifesta um domínio alternado do amor e do ódio, do bem e do mal. Apesar da lenda, supõe-se que a morte de Empédocles tenha ocorrido no Peloponeso, Grécia, por volta de 430 a.C.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Tales de Mileto





Nenhum escrito de Tales sobrevive, nem há fontes contemporâneas a seu respeito. As realizações que lhe são atribuídas baseiam-se em referências tardias ou em lendas mantidas pela tradição. Segundo Heródoto, Tales foi um estadista de visão que advogou a federação das cidades jônicas da região do Egeu. Segundo Aristóteles, foi ele o primeiro a afirmar que a água era a substância fundamental do universo e de toda a matéria.

Considerado o primeiro filósofo grego, Tales nasceu por volta de 625 a.C. em Mileto, onde teria, como um dos sete sábios, fundando a escola que conserva o nome de sua cidade natal. Já se pretendeu ver, na escola de Mileto, quer dizer, em Tales, Anaximandro e Anaxímenes, a expressão mais autêntica do espírito jônico, ao qual se oporiam os eleatas, representantes do espírito dórico. A nova concepção de mundo dos milésios denominou-se logos, palavra grega que significa razão, palavra ou discurso. As características do logos, que o contrapõem ao pensamento mítico, são a imanência (oposta à transcendência), o naturalismo e o abandono do antropomorfismo. Esboçou-se assim a primeira tentativa de explicar racionalmente o universo, sem recorrer a entidades sobrenaturais.

Os filósofos da escola de Mileto eram homens de saber prático, acostumados a viajar, dedicados à política e ao trabalho intelectual. A partir de factos particulares, conceituaram a realidade como um todo organizado e animado. Diante da multiplicidade e da mutabilidade das aparências, buscavam um princípio unificador imutável, ao qual chamaram arké - origem, substrato e causa de todas as coisas. Em geometria, atribui-se a Tales a invenção de cinco teoremas. Diz-se também que ele usou os seus conhecimentos geométricos para medir as pirâmides egípcias e para calcular a distância entre navios no mar e a costa. Referências como essas, ainda que às vezes possam não corresponder à verdade, ilustram, todavia a reputação que o cercava.

Tales teria sido um precursor do pensamento científico ao substituir a explicação mítica da origem do universo pela explicação física de sua cosmologia baseada na água. Para ele, a água era o princípio formador da matéria porque o que é quente precisa da humidade para viver, o morto se resseca, todos os germes são húmidos e os alimentos estão cheios de seiva.
É natural que as coisas se nutram daquilo de que provêm. A água é o princípio da natureza húmida, que entretém todas as coisas, e a terra repousa sobre a água.

As combinações se fazem pela mistura e pela mudança dos elementos, e o mundo é um só. A esfera do céu está dividida em cinco círculos, ou zonas: ártica, trópico de verão, equador, trópico de inverno e antártica. Primeiro astrónomo a explicar o eclipse do Sol, ao verificar que a Lua é iluminada por esse astro, Tales de Mileto, segundo o historiador grego Diógenes Laércio, morreu com 78 anos durante a 58ª Olimpíada (548-545 a.C.).